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Primeiro imóvel: morar nele ou alugar para terceiros?

Existe uma resposta certa, mas ela depende de quatro variáveis do seu caso, e nenhuma delas é opinião. Este texto mostra quais são e como medir cada uma.

6 min de leitura Por Alexandre Ramos
Molho de chaves sobre a bancada de uma cozinha vazia com luz de janela ao fundo

A mesma chave abre duas estratégias diferentes. A escolha entre elas tem consequência de longo prazo.

Depende de quatro números do seu caso: a razão entre aluguel e preço onde você moraria, a mesma razão onde você investiria, quanto tempo pretende ficar no lugar e se você de fato investiria a diferença todo mês. Se a região de investimento rende bem mais, existe chance real de mudança nos próximos anos e você já tem o hábito de investir, alugar para terceiros e continuar de aluguel tende a fazer sentido. Se as razões são parecidas, o horizonte é longo ou a diferença acabaria gasta, morar no imóvel tende a ser a escolha mais sólida.

A discussão costuma virar debate de opinião, com um lado falando em segurança e o outro em racionalidade financeira. Os dois estão parcialmente certos, o que explica por que ela nunca termina. A resposta existe, mas não é geral: ela sai dessas quatro variáveis mensuráveis, explicadas abaixo.

Por que a pergunta não é óbvia

Morar no imóvel próprio elimina o aluguel, o que parece resolver a conta na hora. Mas eliminar o aluguel não é o mesmo que ficar sem custo de moradia. Continuam existindo condomínio, IPTU, manutenção e, principalmente, o custo de oportunidade do capital imobilizado. Se a compra depender de crédito, a escolha entre consórcio ou financiamento entra nessa mesma conta.

Alugar para terceiros e continuar morando de aluguel parece contraintuitivo, e é por isso que costuma ser descartado sem análise. Em algumas configurações de mercado, é a opção que produz mais patrimônio em dez anos.

Nenhuma das duas é obviamente superior. O que decide são os números abaixo.

As quatro variáveis

1. A razão entre aluguel e preço na sua região

É a variável mais importante e a mais fácil de levantar.

Pegue o valor mensal de aluguel de um imóvel semelhante ao que você compraria, e divida pelo preço de venda desse mesmo tipo de imóvel. O resultado, em percentual mensal, diz quanto o mercado local cobra para você ocupar um imóvel em vez de possuí-lo.

Quando essa razão é baixa, alugar para morar sai relativamente barato, e comprar para morar imobiliza muito capital em troca de pouca economia mensal. Quando é alta, morar de aluguel fica caro e comprar para morar melhora o fluxo imediatamente.

O detalhe: essa razão varia muito entre bairros da mesma cidade, e entre tipos de imóvel na mesma rua. A média da cidade não serve. É o mesmo cuidado de bairro que aparece em o que faz um imóvel valorizar.

2. A diferença entre o imóvel que você quer morar e o que rende bem

Quase nunca são o mesmo imóvel.

O imóvel para morar é escolhido por proximidade do trabalho, escola dos filhos, família, silêncio, garagem, vizinhança. O imóvel que rende bem é escolhido por demanda de locação, custo de condomínio, liquidez e perfil de inquilino. O roteiro de como analisar um imóvel de renda detalha esses critérios.

Quando essas duas listas divergem muito, e elas costumam divergir, comprar para morar significa comprar um ativo escolhido por critérios que não têm relação com rentabilidade. Isso não é erro, desde que a decisão seja consciente.

3. Seu horizonte de permanência

Custo de transação em imóvel é alto: ITBI, escritura, registro, corretagem na venda. Diluído em quinze anos, é irrelevante. Diluído em três, é uma perda significativa.

Se existe chance real de mudar de cidade, trocar de emprego ou mudar de fase nos próximos anos, comprar para morar concentra o custo de transação num prazo curto, justamente quando ele mais pesa.

4. Sua disciplina com a diferença

Esta é a variável que arruína a teoria na prática, e ela não é financeira.

O argumento de alugar para morar e investir a diferença só funciona se a diferença for efetivamente investida, todo mês, por anos. Quando ela é consumida, e frequentemente é, a comparação deixa de valer, e o imóvel próprio vence por um motivo que não aparece em planilha: ele força a poupança. É a mesma troca de consórcio ou poupança, quando o plano é juntar para comprar à vista.

Ser honesto sobre isso vale mais do que qualquer projeção. Alguém que sabe que não vai investir a diferença tem, na prática, uma resposta diferente de alguém que já mantém esse hábito há anos.

Duas xícaras sobre a mesa de uma cozinha, uma vazia e outra cheia

Como decidir, na prática

Um caminho curto, que qualquer pessoa consegue percorrer num fim de semana:

  1. Levante o aluguel mensal e o preço de venda de imóveis semelhantes na região onde você moraria. Calcule a razão.
  2. Faça o mesmo para a região onde você investiria, que pode ser outra.
  3. Compare as duas razões. Se a segunda for bem melhor, existe um argumento real para separar as decisões de moradia e de investimento.
  4. Estime seu horizonte de permanência com sinceridade.
  5. Olhe seu extrato dos últimos doze meses e responda se a diferença seria investida.

Se os itens 3 e 5 apontarem na mesma direção, a decisão está tomada. Se apontarem em direções opostas, o item 5 costuma ter mais peso, porque comportamento vence planilha no longo prazo. Se a compra vier por consórcio, o simulador de consórcio imobiliário mostra a parcela que entraria nessa comparação.

Um terceiro caminho, pouco considerado

Existe uma configuração intermediária, entre os caminhos de investir em imóveis, que raramente entra na conversa: comprar um imóvel com perfil de renda, alugá-lo, e continuar morando de aluguel por um período determinado, com data para reavaliar. Se a ideia for locação por temporada, vale ver antes onde o short stay funciona.

Isso separa as duas decisões sem descartar nenhuma. O imóvel é escolhido por critério de rentabilidade, e a moradia continua flexível enquanto a vida ainda está mudando. Em algum momento, com mais patrimônio imobiliário formado, a decisão de morada é retomada em melhores condições.

Não é a resposta certa para todo mundo. É a opção que mais frequentemente fica de fora da análise sem motivo.

O ponto

Não existe resposta universal, e desconfie de quem apresentar uma. O que existe são quatro números do seu caso: a razão aluguel/preço onde você moraria, a mesma razão onde você investiria, seu horizonte de permanência e sua disciplina real com a diferença.

Com esses quatro levantados, a decisão costuma se apresentar sozinha. Sem eles, qualquer escolha é palpite bem intencionado.

Alexandre RamosFundador da Ramos Capital, consultoria patrimonial com consórcio em Uberlândia/MG, com atendimento online para todo o Brasil.

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